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Jonas Furtado
Foram quatro anos que duraram uma eternidade. Uma estranha convulsão, a frustrante derrota. Duas cirurgias complicadas, a recuperação traumática. Uma nova final de Copa do Mundo, os gols do pentacampeonato. O recorde de Pelé igualado. Ronaldo escreve definitivamente seu nome na lista dos maiores de todos os tempos.
Não é surpresa que mais uma vez a Copa do Mundo tenha marcado uma virada na vida do craque. A carreira dele sempre foi pontuada pelos Mundiais. Aos 25 anos, já disputou três - chegou à final em todos.
O universo a seus pés
Tudo começou em 1994. Depois de despontar no Cruzeiro e alcançar números similares aos de Pelé em começo de carreira, foi convocado por Carlos Alberto Parreira a conhecer um mundo novo. Na campanha do tetracampeonato, satisfeito em fazer parte do grupo, assumiu o papel de aprendiz. Não entrou em nenhuma partida, mas conviveu de perto com aquele que viria a ser seu mentor e o melhor jogador do torneio: Romário.
Ao acompanhar o triunfo do Baixinho, o garoto aguçou sua ambição para quebrar recordes. E decidiu que, sim, era aquilo que ele queria: entrar para o seleto rol dos gigantes do futebol.
Depois de passar pelo batismo de fogo, chegara a hora de conquistar o mundo. Na Europa, ganhou massa muscular, incrementou seu arsenal. Assumiu a posição de titular absoluto da camisa 9 canarinho. Entre 1995 e 1997, o universo curvou-se a seus pés. A Fifa o elegeu o melhor do planeta duas vezes, em 96 e 97.
A queda
Com a imagem superexposta pelo patrocinador, Ronaldo tinha tantos compromissos extra-campo quanto jogos. Sem perceber, foi perdendo um pouco da alegria marota que sempre o acompanhara.
O golpe quase fatal veio no Mundial de 1998. Após cumprir belas participações nos seis jogos iniciais e ser indicado pela Fifa como melhor jogador do torneio, o "Fenômeno" sucumbiu a uma estranha convulsão na véspera da decisão contra a França. Escalado fora de suas condições ideais, foi uma pálida lembrança do jogador que encantara o mundo. Os 3 a 0 aplicados pelos franceses marcaram um ponto de virada na vida do craque.
Teve início então a pior fase de sua carreira. Contusões, cirurgias, muita fisioterapia. A maldição parecia não ter fim, e Ronaldo chegou a pensar que nunca mais jogaria novamente.
Paralelamente, a Seleção era a imagem e semelhança de seu maior craque. O brilhante histórico de vitórias foi manchado por derrotas para equipes fracas como Japão, Honduras, Bolívia e Austrália. Após passar pelas Eliminatórias aos trancos e barrancos, Felipão precisava de alguém que resolvesse e apostou em Ronaldo.
A volta por cima
Recuperando-se lentamente de sua última cirurgia, o "Fenômeno" acabara de voltar aos gramados, após quase dois anos sem entrar em campo. Poderia ter se eximido, mas, num gesto típico dos grandes homens, assumiu a responsabilidade, mesmo com todas as dúvidas levantadas sobre suas reais condições físicas e psicológicas.
No Mundial da Coréia e do Japão, Ronaldo encontrou novamente seu caminho vitorioso. Deixou sua marca em todos os jogos, exceto no clássico contra a Inglaterra. Encheu de orgulho quem apostou nele. Conquistou de volta os que desconfiavam.
Quando precisou de uma força extra, após passar em branco contra os ingleses, foi buscá-la em um irreverente e inusitado novo corte de cabelo. Recarregou energias, renovou a inspiração.
Ao chegar no estádio de Yokohama neste domingo para enfrentar a Alemanha, Ronaldo estava seguro do que o destino lhe reservara. Essas coisas a gente sente, ninguém precisa avisar. Ele sabia que aquele era seu momento, a hora de trazer de volta para si a certeza sobre seus atos.
O título e a artilharia, com oito gols, vieram como bônus. A consagração como um dos maiores jogadores de todos os tempos foi um tempero. Para o Fenômeno, a maior de todas as conquistas foi vencer seus próprios medos.
Exorcizados os fantasmas, cessado o som das correntes, Ronaldo está leve e pronto para seguir sua jornada rumo à imortalidade.
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